Possivelmente você iria sair deste país, certo? Entretanto muitas pessoas o fariam quando não houvesse mais esperanças e aí o custo da mudança já seria bem alto. É assim que a esmagadora maioria reage às mudanças: com protelação e omissão.
Uma parte da minoria, que fez o seu movimento percebendo os sinais e se antecipando ao auge do movimento de mudança, provavelmente se aproveitará do baixo custo de oportunidade e começará a explorar economicamente as opções daqueles que ainda não optaram por mover-se. A outra parte buscará despertar as pessoas para o processo. O custo da mudança fica alto, pois o senso de oportunidade foi preterido pelo imediatismo e descaso, frutos da ignorância. As pessoas percebem que algo está acontecendo, mas não fazem nada para se precaver ou para ajudar os outros a fazerem o mesmo.
Tuvalu é um país insular da Polinésia que ameaça sumir no próximo século. Só esta frase já foi capaz de causar furor na COP15 em Copenhague, motivado por ativistas e céticos ("hipocrisia" seria politicamente incorreto, termo que protege seus adeptos) diante da possibilidade do aumento do nível do mar. Está armado o jogo, mas qual foi o resultado da COP15 mesmo?
Pagamos caro pela mudança por falta do senso de oportunidade, por seguir com nossas vidas, ignorando os sinais que descortinam na nossa frente; e isso acontece todos os dias. Como? Começa ao acordar para ir trabalhar.
Acordamos mais cedo para levar, no mínimo, o dobro do tempo que faríamos o mesmo percurso em um domingo no mesmo horário. Chegamos tarde em casa também pelo mesmo motivo (excluo as horas extras aqui).
Inconscientemente ou não (depende do grau de neura) adotamos medidas básicas de segurança para sair de casa, seja de carro ou a pé. Se morarmos fora do eixo urbano-econômico, provavelmente gastaremos mais com transporte e alimentação, sem falar do tempo perdido dentro de um carro ou de um transporte coletivo.
Se morarmos dentro do mesmo eixo, provavelmente gastaremos uma considerável soma com imóvel (aluguel, aquisição, manutenção e impostos) e com o custo de vida, para ter pouca ou quase nenhuma vantagem em tempo de deslocamento do que alguém que mora longe (afinal a saturação das rodovias e da malha de transporte coletivo é visível).
Falamos um ou mais idiomas, temos experiência e não só na formação básica exigida para a profissão, mas uma revista especializada já disse que temos que desenvolver uma formação a mais, considerada diferencial. E no que diz respeito a ampliar conhecimento, priorizamos aquele que agrega diretamente valor ao lado profissional. O circuito cultural é reservado para poucos que têm tempo (e dinheiro, julgam alguns) ou estão de férias.
A empresa precisa racionalizar e aperfeiçoar recursos, processos e resultados para obter vantagem competitiva; mas os resultados esperados são difíceis de alcançar ou parece utopia quando são adicionadas ao assunto de cafezinho e corredor, as relações de poder e influência envolvendo disputa por status e interesses adversos ao objetivo maior.
O que tudo isso resulta? 1 - Vamos nos esforçar constantemente para nos manter competitivos em um mercado de profissionais commodities, o que impacta diretamente na nossa capacidade de manter o custo do padrão de vida. E faremos isso em detrimento da manutenção deste padrão e pouco ou quase nada por um plano de vida.
2 - A nossa qualidade de vida fica resumida aos momentos que podemos comprar (sim, porque não temos tempo, disposição e nem paciência para aproveitar as coisas simples e gratuitas). Esses momentos são poucos, porque durante a semana você gastou o seu dia trabalhando e se deslocando, deixando as horas restantes em uma disputa ferrenha entre sono e demandas pessoais (contas, esposa, filhos e academia, se ainda tiver disposição).
3 - A vida que você leva impacta no seu emocional e nas suas atitudes, e elas impactam no seu círculo de relações (família, amigos etc.). Se pergunte o quão sadio e satisfeito está com sua vida e a qualidade das suas relações.
4 - A onda da mudança na empresa virá, pois a necessidade de vantagem competitiva falará mais alto. Se fôssemos surfistas; entre surfar, perder a onda ou tomar um caldo; dependeria do quanto percebemos e nos mexemos diante dos sinais.
Você paga com o seu tempo para levar a vida que leva. Gostando ou não do que vou dizer agora, no final das contas você pode estar pagando caro para trabalhar, morar, comer, se deslocar, se aprimorar e sustentar sua família. Você paga caro por ser mais um alienado dedicado a sobreviver, se achando o máximo só porque tem pessoas em pior situação do que você e que terá um grande futuro se cumprir a cartilha de sucesso. E se percebesse que vai morrer em pouco tempo, duvido que continue a fazer as mesmas coisas tanto quanto a seguir a mesma cartilha.
A intolerância ao desconforto, aquela que ultrapassa a sensatez da resiliência, é o que nos move diante da mudança, que agora já pode ser chamada de crise. A mudança é um processo que quando se concretiza, sem que tenhamos nos preparados para ela, perceberemos como crise. É a crise profissional, familiar, financeira, de saúde, ambiental, social, o que for.
Estamos tão entorpecidos pelos nossos dramas pessoais e imediatos, que enxergamos míopes o futuro. Aí então, num belo dia, gritamos desesperados que fomos pegos de surpresa por uma crise. Tuvalu e Atafona no Rio de Janeiro já mandaram seus recados. Os constantes engarrafamentos da Avenida Brasil (RJ) e Marginal do Tietê (SP) testam a paciência e consomem horas que poderiam ser dedicadas ao prazer ou trabalho.
A violência nas ruas das grandes cidades consome vidas e investimentos em segurança patrimonial e pessoal. Consome também nossa Paz.
O nosso ego e necessidade de status consomem tempo e dinheiro dedicados a manter um padrão de vida insustentável diante da disputa por recursos cada vez mais escassos e degradados. O projeto familiar se perde em meio de conflitos, drogas, consumo desvairado e um culto ufanista ao trabalho.
Posso parecer um tanto apocalíptico, mas há muitos exemplos de êxodo urbano no mundo afora, buscando um custo menor e uma qualidade de vida maior. Algumas empresas e pessoas já perceberam os sinais, só nos resta saber se estaremos junto com eles ou ficaremos para pagar alto pelo custo de oportunidade da mudança e sermos "surpreendidos" por uma crise.
Quantas vezes você viu ou ouviu sinais, mas os ignorou? Sua postura pessoal e profissional está preparada para se mobilizar quando ainda houver tempo ou certamente estará junto com aqueles que pagarão o custo de oportunidade dizendo "Eu bem que imaginei que isso iria acontecer"?
Aliás, você está entre os que ganharam com a mudança ou está entre os que tentam despertar os outros para ela? Se você não estiver em nenhum dos dois, lamento. Sua ilha vai desaparecer; você vai junto ou vai pagar caro para sair dela.
Artigo de Jason Abrahão Fonte: www.rh.com.br |