Entretanto, com as boas perspectivas econômicas, a tendência é de que o estímulo às compras cresça, o que pode aumentar, novamente, as dívidas e a inadimplência. E quando as finanças pessoais não vão bem, o problema passa a ser também das empresas: na prática, o que se observa é que pessoas endividadas faltam mais ao trabalho e ficam menos produtivas.
Isso sem falar dos acidentes de trabalho e do clima organizacional. “Estudo recente do professor Thomas Garman, da Virginia Tech University, nos Estados Unidos, mostra que empregados com problemas financeiros são os que apresentam maiores índices de faltas e atrasos. As empresas não podem mais virar as costas para isso”, assinala o consultor Reinaldo Domingos, presidente do Instituto Disop de Educação Financeira.
Ele destaca que, nesse tipo de iniciativa, a atuação da área de RH é essencial, pois tudo nasce da análise, com os funcionários, dos problemas existentes para, a partir daí, se constituir um cronograma de ações. Domingos também alerta sobre a importância de a empresa não ter olhos apenas para quem já está com problemas. “A prevenção é o caminho para o sucesso financeiro dos colaboradores”, diz, frisando, ainda, a importância de que todos os departamentos estejam envolvidos na iniciativa. “Nas corporações modernas, não há mais espaço para ações realizadas isoladamente.” NA PRÁTICA Nesse sentido, algumas empresas saíram na frente, entre elas a própria Serasa Experian. “Nosso negócio está intimamente ligado à educação financeira e temos sido pioneiros na forma de abordá-la. As iniciativas que levamos para a sociedade são aplicadas antes como público interno, que,muitas vezes, tambémé chamado para ajudar na construção do projeto e, assim, acaba se tornando o seu primeiro beneficiado”, explica o diretor de desenvolvimento humanoMilton Pereira. A iniciativa e a responsabilidade pelos program
as são da área de RH, que conta com a participação de diversos departamentos. No caso do programa Sonhos Reais, os funcionários são capacitados para atuar voluntariamente emescolas públicas, oferecendo oportunidade de aprendizado sobre conceitos básicos relacionados a ganhos, gastos, orçamento, poupança e empréstimo, e estimulando o consumo responsável.
Em 2009, o programa beneficiou, direta e indiretamente, mais de 450 pessoas, entre professores, pais, filhos e comunidade. Já as palestras realizadas para os funcionários durante aSemana deQualidade reúnemmais de 500 pessoas por evento – número que se amplia, pois os empregados podem levar a gravação para assistir com a família –, enquanto a orientação financeira dada pela área de serviço social, e cujo atendimento ocorre de forma individual, por demanda do líder ou do próprio funcionário, contabiliza 115 atendimentos e dois empréstimos sociais.
Outra iniciativa vem da Nasajon Sistemas, do Rio de Janeiro. Além de organizar palestras, a área de RH desenvolveu uma apostila para que as pessoas reflitam sobre as altas taxas de juros e seus efeitos nocivos no orçamento doméstico e, também, nas relações humanas. Além disso, foi feita uma parceria com o departamento de Desenvolvimento para a criação do Libro, sistema de controle do orçamento doméstico.
O diretor de RH Carlos Ferreira explica que a ideia, implementada em 2007 e extensiva aos familiares e amigos dos funcionários, surgiu da observação de que era cada vez mais comum encontrar pessoas endividadas. “Isso incomodava os funcionários e rapidamente chegava ao conhecimento do gerente e do RH. Como temos um estilo de gestão muito próximo e preocupado com as pessoas, foi natural a decisão de RH buscar informações para ajudá-las”, relata.
Além de evidenciar a importância de fazer compras à vista e guiá-los na escolha da melhor opção de empréstimo quando este se torna inevitável, a empresa orienta os interessados a poupar e a investir na bolsa de valores.
Até o momento, cerca de 200 pessoas foram atendidas e a área de RH já vê resultados. “Pessoas que estavam endividadas quitaram suas dívidas e estão até poupando. Elas nos relatam que isso se deu a partir da orientação dada pela empresa e da utilização do software de controle orçamentário”, orgulha-se Ferreira.
Também para sensibilizar os funcionários sobre a importância de planejar a utilização da renda familiar e, mais do que isso, oferecer alternativas para despertar o interesse pelo desenvolvimento de novas habilidades que favoreçam o empreendedorismo, a ECT, ou melhor, Correios, criou, em 2003, a Gestão do Orçamento Familiar, destinada aos 150 mil colaboradores – funcionários , terceirizados, estagiários, aprendizes e franqueados – e seus familiares.
“Quando é necessário fazer empréstimo, orientamos os funcionários a utilizarem o Postalis, fundo de pensão dos servidores da ECT, que tem uma taxa de juros bem inferior à do mercado”, conta o diretor de gestão de pessoas Paulo Magalhães.
Do lançamento até o final de 2009, mais de 270 mil pessoas participaram da iniciativa; só no primeiro ano, foram 140 mil. Segundo Magalhães, quando os colaboradores aplicam as ferramentas para gerenciar seu orçamento, ampliam seu conhecimento sobre consumo consciente e adotam atitudes diferenciadas na gestão do seu equilíbrio financeiro, o impacto no ambiente de trabalho é direto. AJUDA EM ESPÉCIE Mais do que orientar e educar os funcionários, muitas empresas oferecem empréstimo de dinheiro. “Não temos como fugir disso. Os funcionários ficam conosco, em média, mais de oito anos e isso gera um clima de família. Como posso negar ajuda a um funcionário que vi casar, ter filhos, se separar e, agora, está endividado por não saber viver essa nova vida? Como ignorar a vontade do funcionário que comprou o seu primeiro carro? Bem, nem todos os casos são atendidos, mas a empresa tenta ajudar, seja com apoio financeiro ou com conselhos”, relata Ferreira, da Nasajon.
Há empresas que, inclusive, oferecem empréstimos com desconto em folha de pagamento, o chamado crédito consignado, como uma modalidade diferenciada de benefício. Domingos, do Instituto Disop, chama a atenção para este último item. “O que era para ser um benefício, está crescendo assustadoramente e se tornando uma das principais formas de endividamento da população. É importante que a empresa disponibilize esse produto com alguns cuidados, tendo a preocupação de não combater apenas o efeito e, sim, a causa do problema do endividamento, gerada pela falta do conhecimento da educação financeira. Se isso não for observado, o benefício agravará o problema, que pode se tornar uma bola de neve”, finaliza.
Pereira, da Serasa, concorda. Para ele, as empresas devem ajudar os funcionários a quitar suas dívidas de forma responsável. “Na maioria das vezes, emprestar dinheiro não tem sido a melhor solução. Se isso for feito sem um trabalho educativo, pode agravar ainda mais a situação.” A orientação e a mudança de comportamento, diz o executivo, resolvem a maioria dos problemas, garantindo que as pessoas aprendam a fazer um orçamento, poupar, gerenciar dívidas, entender melhor os serviços bancários, aprender a negociar e a discutir o assunto no ambiente familiar. |