Não é difícil se sentir à vontade com Nadir Moreno, presidente da UPS no Brasil, maior empresa do mundo em transporte expresso e entrega de pacotes.
Dona de um sorriso largo, ela mescla seriedade e informalidade com um equilíbrio que torna qualquer conversa, até as mais delicadas e sérias, numa ação prazerosa. Talvez o sucesso de sua trajetória resida justamente aí. Ela é admirada por seus liderados. E, por ser “cria” da casa, conhece como ninguém a companhia, suas necessidades, visões e valores. Sabe da importância de dividir os conhecimentos e o faz como uma missão. Sempre com leveza. Há 17 anos na empresa, já foi responsável pelas áreas de Compras, Contas a Pagar, a Receber, Tesouraria, Manutenção, Jurídico; Departamento Jurídico; Recursos Humanos e Jurídico. Após incursões ao Chile, Argentina e EUA, hoje ela é a número um da unidade brasileira e uma das principais executivas de um conglomerado de números dantescos: em 2008, a empresa registrou um faturamento de U$ 51,5 bilhões, com 3,9 bilhões de entregas de encomendas e documentos realizadas pelos 415 mil funcionários espalhados pelo mundo. Formada em Direito, Nadir, quando estudante, almejava ser gerente de alguma coisa. “Achava um posto legal, com responsabilidades interessantes”, lembra-se. Sua inquietação e determinação, no entanto, levaram-na muito mais longe. Hoje, como presidente, não perde de vista aspectos operacionais, mas não se esquece de que precisa motivar suas equipes. “O líder precisa ser uma pessoa confiável, que estimule e desperte o sentimento de orgulho em seus colaboradores”, afirma. Apesar de liderar uma empresa que facilita a vida das pessoas, ela mesma ainda não encontrou uma forma equilibrada de administrar a sua. Mas isso faz parte de um processo de aprendizado constante, outro mantra muito utilizado por ela. Hoje, diz, seu foco é a empresa.
Todavia, quando tira a indumentária de pessoa jurídica e veste a de pessoa física, ela gosta de ficar com a família e com o namorado. Pretende, no médio prazo, unir isso tudo e formar o seu núcleo familiar. A maternidade está em seus planos. Entrevista
Confira a entrevista exclusiva que Nadir concedeu à revista CanalRh, na qual ela discorre sobre carreira, dificuldades, desejos, fragilidades e a interminável – e anódina – guerra dos sexos corporativa. CanalRh: Qual o sentimento de liderar uma companhia que reduz distâncias, aproxima as pessoas e, assim, contribui para uma vida mais leve? Nadir Moreno: Ah, de orgulho, né? É legal você tomar decisões e ver os impactos positivos no dia a dia das pessoas. CanalRh: Você, que lidera uma empresa imensa que facilita a vida das pessoas, consegue administrar bem sua vida pessoal? Nadir: Sinceramente, não administro muito bem, não. Mas estou aprendendo. Sempre penso que daqui a três meses vou estar mais estabilizada, e isso não acontece. Antes eu conseguia lidar melhor. Agora, neste posto, o excesso de trabalho e o momento atípico da economia impediram que meus planos estivessem adiantados. Estou passando por essa curva, mas sairei dela. Ainda estou buscando o equilíbrio. Pelo menos eu tenho consciência de que, hoje, a empresa é minha prioridade. CanalRh: Em uma apresentação, você disse que uma mulher vale por três. Isso se aplica também na hora de gerenciá-las, seja no lado positivo, seja no negativo? Nadir: Disse isso porque as mulheres conseguem desempenhar várias funções ao mesmo tempo, como ser mãe, esposa, profissional. Isso é positivo, mas pode se tornar negativo se vier com uma perda de foco ou com uma sobrecarga excessiva. CanalRh: A sensibilidade e emotividade femininas já a prejudicaram de alguma maneira ao longo de sua carreira? Nadir: Nunca. Sou muito equilibrada nesse sentido. Para mim, a linha que divide as vidas pessoal e profissional é muito clara. Não transfiro nada de um mundo para o outro. Não significa que eu seja fria, apenas focada e equilibrada. Preciso ser assim para ter sucesso nos dois ambientes. CanalRh: Com a experiência que tem em RH, qual a real função dessa área nos dias atuais? Nadir: O RH tem o papel fundamental de ser o departamento que zela por todos os procedimentos, processos e programas. Além disso, é ele quem traduz as expectativas que a empresa tem dos colaboradores e vice-versa. O RH é o estimulador e facilitador desse relacionamento, garantindo harmonia e bom ambiente de trabalho em todos os sentidos. É, portanto, extremamente estratégico. Essa área é sinônimo de inteligência. CanalRh: Qual é a maior fonte de motivação para um colaborador, independentemente de sua posição? Nadir: O reconhecimento. E, aí, cabe aos gestores encontrarem a forma de reconhecer seus funcionários, seja por meio de promoção, de palavras de apoio, de projetos desafiadores. O mais importante é não replicar fórmulas e ter a sensibilidade de identificar as necessidades de cada profissional, inclusive no que diz respeito ao reconhecimento. A inclusão é outro ponto importante. É necessário que todos os colaboradores se sintam parte integrante do negócio, para que seja despertado um sentimento de orgulho. CanalRh: E qual é a sua maior motivação? Nadir: O cumprimento de todas as metas de minha unidade. Para isso, é preciso reconhecer, motivar, ser positivo, incluir, escutar. Com uma equipe insatisfeita, jamais alcançarei os resultados esperados. Portanto, manter uma gestão eficiente é uma motivação também. CanalRh: O que te dá mais satisfação em seu trabalho? Nadir: A oportunidade de ter novos desafios e oportunidades a cada dia. Aprendo com funcionários, com clientes, com o produto, com a indústria. Minha posição, hoje, que é de abrangência, permite isso. E, claro, não basta aprender. É preciso também colocar em prática o conhecimento adquirido e replicá-lo. Caso contrário, não vale nada. CanalRh: Que tipo de profissional jamais trabalhará com você? Nadir: Aquele com atitude negativa. Todo ser humano tem capacidade de aprender desde que esteja aberto a isso e se sinta parte daquele processo. Se ele estiver negativo, a batalha já está perdida. CanalRh: Pessoas com qual perfil têm lugar garantido no seu time? Nadir: Profissionais com expediente, com postura profissional, que vistam a camisa e sejam extremamente comprometidas. CanalRh: O que é uma boa liderança? Nadir: É aquela que desenvolve as pessoas, ensina, estimula, dá oportunidades para os liderados errarem para que eles possam acertar. O líder tem de ser confiável e, por ter credibilidade, convence espontaneamente. Em termos técnicos, não precisa ser um especialista, mas tem de conhecer o negócio da empresa e tudo que o cerca. E, obviamente, por ser um modelo a ser seguido, é otimista. CanalRh: Você gosta de influenciar pessoas? Nadir: Sim. Em geral, as pessoas me seguem naturalmente. Esse é o ideal e eu gosto disso. Mas há situações em que só eu posso decidir. Muitas coisas no dia a dia da corporação acontecem por conta de minha posição e não pela minha influência. CanalRh: Profissionalmente, quais características masculinas mais admira e de quais menos gosta? Nadir: Gosto demais da objetividade e da praticidade dos homens. Além disso, eles têm o pensamento estratégico e a capacidade de planejamento muito apurados. Em relação aos “pontos negativos” não tenho nada do que reclamar. CanalRh: E das mulheres? Nadir: Admiro a determinação, o detalhismo e o perfeccionismo que, se bem dosados, são incríveis. O excesso de sensibilidade, às vezes, me incomoda um pouco. CanalRh: Qual é o maior sinal de reconhecimento que você identifica em sua carreira? Nadir: Foi quando fui promovida a gerente de RH. Antes, eu era supervisora de RH e jurídico. Fiquei atônita, feliz, surpresa, porque era um passo e tanto em minha carreira. Além disso, era a concretização de um sonho, porque quando, no passado, eu fechava o olho e me imaginava no futuro, me via como gerente de alguma coisa. CanalRh: Quais seus objetivos a médio e longo prazos? Nadir: Profissionalmente me vejo ainda presidindo a UPS no Brasil, mas uma UPS maior, com mais representatividade. Tenho grande espaço para conquistar. No âmbito pessoal, sem dúvida, é a maternidade. CanalRh: Quais seus principais pontos fortes? Nadir: Sou determinada, comprometida, profissional, estratégica e analítica. Você vai perguntar dos fracos agora, né? CanalRh: Claro... Nadir: Às vezes tenho dificuldade em priorizar porque quero resolver tudo de uma vez. Sou vaidosa demais. E tem também essa dificuldade de, atualmente, equilibrar as vidas pessoal e profissional. |